A Bússola Quebrada
Não otimizamos, somos guiados por estórias e nosso pensamento não é tão claro
O ser humano não otimiza
No nosso último post, A Vida como Ela É e o Risco como Ele Não É, vimos que o risco é entendido de diferentes maneiras pelas pessoas. Agora é a hora de ver melhor como as pessoas tomam suas decisões.
A teoria econômica tradicional pressupõe que as pessoas são agentes racionais que otimizam suas decisões, ou seja, avaliam todas as alternativas, calculam as probabilidades, maximizam a utilidade esperada e fazem a escolha ótima[1]. A premissa acima está errada. As pessoas não otimizam. No mundo real, as pessoas “se viram” (cope with, em inglês). Elas tomam decisões que buscam melhorias incrementais na sua situação, não decisões ótimas em abstrato, que envolveriam complexos cálculos estatísticos. Mesmo aquelas pessoas que encaram volatilidade como risco não fogem da volatilidade por cálculos complexos, mas porque a volatilidade as incomoda.
Se por um lado é claro que as pessoas não são guiadas por uma otimização de utilidade na tomada de suas decisões, por outro lado há uma discussão teórica sobre o que essa constatação significaria. As pessoas são irracionais e cheias de vieses que atrapalham seu raciocínio lógico? Ou as pessoas têm uma racionalidade diferente, que simplesmente passa ao largo da estatística e está mais ligada a manter alguma coerência com sua leitura do que passa ao seu redor? Somos da opinião que a segunda visão está certa, mas a discussão não cabe aqui[2]. Isso não torna as pessoas irracionais, pelo contrário. Diante de um mundo de incerteza radical, em que é impossível ter todos os dados relevantes para uma otimização completa, buscar resultados “bons o suficiente” é a única estratégia viável[3]. De toda forma, a pesquisa sobre vieses comportamentais é extremamente útil para ilustrar os limites da visão tradicional de total racionalidade humana, como veremos mais adiante.
Narrativas
Os seres humanos não organizam seu pensamento em termos de probabilidades; eles organizam em termos de narrativas[4]. Uma boa história é mais convincente que um cálculo estatístico. Nós lidamos com o futuro a partir de narrativas de referência, os modelos mentais do que esperamos que aconteça, e vamos nos adaptando à medida que temos novas informações.
No mercado de ações, isso tem implicações profundas. Os investidores não vendem suas ações porque fizeram um cálculo de probabilidade sobre o que pode acontecer com um papel. Eles vendem porque a narrativa mudou, ou seja, porque a história que contavam a si mesmos sobre uma empresa ou sobre o mercado deixou de fazer sentido. A narrativa de que “a economia está forte” pode se transformar, em questão de dias, na narrativa de que “estamos à beira de uma recessão”, e os preços se ajustam violentamente, não porque os fundamentos mudaram nessa velocidade, mas porque a narrativa mudou.
Os dois sistemas
É bem conhecida a distinção que Daniel Kahneman faz sobre a existência de dois sistemas na mente humana. Ele propõe que operamos com dois sistemas cognitivos distintos[5]:
• Sistema 1: rápido, automático, intuitivo. É o sistema que reconhece rostos, desvia de obstáculos e responde 2+2 sem pensar. Opera sem esforço e sem intenção; e
• Sistema 2: lento, deliberado, racional. É o sistema que calcula 17×24, verifica a lógica de um argumento e exerce autocontrole. Requer concentração e esforço.
O ponto crucial e contraintuitivo é que, quando pensamos em nós mesmos, nos identificamos com o Sistema 2 — o “eu” consciente que tem crenças, toma decisões e planeja. Mas, na prática, é o Sistema 1 quem gera as impressões, intuições e emoções que o Sistema 2 frequentemente endossa sem verificação[6]. O Sistema 2 acredita que está no comando, mas, na maior parte do tempo, está apenas ratificando as conclusões do Sistema 1. Normalmente pensamos que a nossa mente consciente é uma espécie de presidente que controla nossas ações e vontades, mas talvez a nossa mente consciente seja apenas um porta-voz de uma mente deliberativa que opera a portas fechadas (fora da nossa consciência)[7].
Nossas fragilidades
As decisões de investimento deveriam ser exclusivamente do Sistema 2, afinal, envolvem cálculo, análise e ponderação. Ocorre que frequentemente o Sistema 1 assume o comando, especialmente em momentos de medo ou euforia. Momentos de crise como 2008 ou 2020 e outros crashes são exemplos clássicos de situações de venda maciça no mercado. Trata-se do Sistema 1 em ação.
É interessante indicar algumas situações específicas que têm impacto em decisões de investimento:
• WYSIATI (“What You See Is All There Is“, em português “O Que Você Vê É Tudo Que Existe”): o Sistema 1 constrói a melhor história possível com a informação disponível, sem considerar o que não sabe, o que falta, o que poderia estar errado. Quanto mais coerente a história, maior a confiança, mesmo que a informação seja mínima[8]. Para um investidor, isso significa que teses de investimento podem ser construídas com informações limitadas e enviesadas, mas o Sistema 1 as transforma em certezas;
• Ancoragem: um número qualquer, mesmo que irrelevante, influencia estimativas subsequentes. Em investimentos, o preço de compra de uma ação se torna uma âncora que distorce a avaliação do seu valor atual[9];
• Aversão à perda: a resposta psicológica a uma perda é aproximadamente duas vezes mais intensa do que a resposta a um ganho de igual magnitude[10]. Isso explica por que investidores vendem ações vencedoras cedo demais (“travando o lucro”) e mantêm ações perdedoras por tempo excessivo (“esperando recuperar”);
• Ilusão de validade: a confiança subjetiva em nossas avaliações reflete a coerência interna da história que construímos, não a precisão preditiva real[11]. Trata-se de uma situação em que uma narrativa, aparentemente coerente, mesmo sem nenhum amparo estatístico, é tomada por verdade; e
• Fórmulas superam julgamentos: em diversos estudos comparando previsões de profissionais experientes com previsões de modelos estatísticos simples, os modelos foram iguais ou melhores em praticamente todos os casos. As áreas incluem diagnósticos médicos, avaliações de crédito, seleção de pessoal e prognósticos diversos[12]. A razão é que os modelos são consistentes e aplicam os mesmos critérios da mesma forma em cada caso. Seres humanos não têm a mesma consistência.
A conclusão fundamental que emerge da obra de Kahneman é que não há como “desligar” o Sistema 1. A consciência de um viés não é suficiente para evitá-lo. Mesmo pessoas que sabem exatamente o que é a ancoragem continuam sendo ancoradas. O antídoto para as armadilhas do Sistema 1 é a criação de estruturas externas que forcem a intervenção do Sistema 2 nos momentos críticos[13]. Em outros textos, veremos que uma estratégia de investimento sistemática e baseada em regras é, em essência, exatamente essa estrutura externa.
[1] KAY, John e KING, Mervyn, Radical Uncertainty: Decision-Making Beyond the Numbers, Nova York: Norton, 2020, p. 41.
[2] Não é exagero dizer que boa parte da obra Radical Uncertainty: Decision-Making Beyond the Numbers trata exatamente dessa visão de que é errado pressupor alguma forma de raciocínio puramente estatístico no ser humano, que seria atrapalhado por vieses. Ao contrário, o ser humano busca coerência no que acontece ao seu redor, com o objetivo de melhorias incrementais. Essa característica seria fruto da evolução e do instinto de sobrevivência.
[3] KAY, John e KING, Mervyn, pp. 149-151.
[4] KAY, John e KING, Mervyn, pp. 179-195 e pp. 211-212.
[5] KAHNEMAN, Daniel, Thinking, Fast and Slow, Nova York: FSG, 2011, pp. 20-30.
[6] KAHNEMAN, Daniel, p. 24.
[7] Timothy D. Wilson, Strangers to Ourselves, Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2002, pp. 46 a 48.
[8] KAHNEMAN, Daniel, pp. 85-88.
[9] KAHNEMAN, Daniel, pp. 119-128.
[10] KAHNEMAN, Daniel, pp. 282-286.
[11] KAHNEMAN, Daniel, pp. 209-221.
[12] KAHNEMAN, Daniel, pp. 222-233.
[13] KAHNEMAN, Daniel, pp. 417-418.


